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Nossas redes
Nossas redes

Monólogo de um cego, de Zito Batista

 Falaram-me do sol! Maravilhoso sol

Refulgindo na altura …

Ah! se eu pudesse ver, assim como um farol

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Imenso e inacessível

Em vertigens de luz sobre as nossas cabeças!. ..

E — eterna desventura —

Eu fiquei a pensar: por que o sol invencível

Não rasga o negro véu de minha noite espessa

Quando brilha na altura?

Falaram-me das florestas e das aves!

Das aves, cujo canto

Põe na minha alma em febre uns arrepios suaves

De vaga nostalgia …

Ah! se eu pudesse ver as aves e as florestas!

Soberbo o meu encanto!

Se eu pudesse aclarar ã minha noite sombria,

Quando ouvisse enlevado em delírios e festas

Num soberbo canto

Todo poema de amor das aves nas florestas!

E o mar? Onde o mais belo símbolo da vida?

O mar é um rebelado!

Que vive noite e dia “em soluços gemendo

         De cólera incontida,

A investir contra o céu como um tigre esfaimado!

É lindo o mar no seu desespero tremendo!

Eu não o vejo não! Mas chega aos meus ouvidos

E escuto alucinado

A música fatal dos seus grandes gemidos!

Há toda uma história enorme a interpretar

Nesse choro convulsivo e incessante do mar …

Ah! que destino o meu! que desgraçada sorte

Me traçou, pela terra, a mão de um Deus Brutal!

Na vida, em vez da vida, anda comigo a morte,

A escuridão sem fim …

Tenho a envolver-me o corpo a asa torpe do mal.

E falam-me do céu, das aves e das flores;

E dizem que o mundo é um paraíso, assim,

Todo cheio de luz, de aroma, de esplendores!

E eu creio! Eu creio em tudo …

Os homens têm razão! eu creio e desejara

Vendo sumir-se ao longe a minha noite amara

Ver o mar, ver o sol no firmamento mudo

A brilhar!… a brilhar …

Mas o meu grande sonho, o meu sonho infinito

É outro, um outro ainda: o que me faz chorar

E há de, em fúria, arrancar-me o derradeiro grito

Quando eu daqui me for, aos trambolhões, a esmo,

É a ânsia indefinida, o desejo profundo

De conhecer o que há de mais original no mundo,

De conhecer a mim mesmo!

Porque a julgar, talvez, pelo mal que me oprime

Eu devo ser, por força, um monstro desconforme.

Na eterna expiação do mais nefando crime

Atado ao poste real de minha dor enorme!…

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